
Um garoto havia acabado de ter sua primeira
aula sobre Revolução Francesa, e parecia ter se encontrado nas palavras
apaixonadas de seu professor. Descrevendo a queda da monarquia, a massa de
miseráveis avançando contra a Bastilha, a luta por uma nova França, uma França
que dividisse as terras e que a população tivesse o que comer e a possibilidade
de uma vida melhor. As pessoas unidas cantando a Marselhesa. O menino estava
encantado com tudo aquilo, e por isso olhava já fazia uns bons cinco minutos, fixamente,
para o formigueiro que havia em seu jardim.
Ele sabia como funcionava um
formigueiro, tinha aprendido na aula de ciências, mas com a aula de hoje em
História tudo na estrutura do formigueiro parecia muito mais clara e ele
entendia a lógica diabólica daquele sistema... A formiga rainha era uma governante
absolutista que punha seu povo para trabalhar incansavelmente, sob o sol inclemente
e por horas a fio as formigas operárias,o povo, eram explorados até a exaustão.
Ele tinha que fazer algo, não deixaria que aquele regime monárquico e opressor
continuasse!
Primeiro ele pensou em sequestrar a Rainha, e
que ao fazer isso as formigas se dariam conta da ausência de liberdade e
instalariam um governo popular, no entanto como a capturaria? Pelo que sabia a
monarca ficava no fundo do formigueiro, muito bem protegida, achou melhor não, era
inviável demais. Concluiu que seria melhor barrar o trabalho dos insetos, pôs
gravetos e pedras no caminho que elas percorriam, e até tirou as folhas que
carregavam de suas pequenas costas suadas. Queria fazer com que parassem com
aquela labuta fatigante, talvez isso gerasse uma discussão, uma manifestação para
desestabilizar o poder regente, mas não, elas não aderiram, passaram por cima
da pedra que lhes obstruía o caminho e uma delas chegou a picá-lo.
A tarde já ia chegando ao fim quando uma
brilhante idéia lhe ocorreu. Correu até a cozinha e voltou pouco depois. Olhou
para aquela fila de criaturas carregando seu pesado alimento trazido de cantos
longínquos do quintal; ele abaixou-se e de forma divina estendeu a mão deixando
cair o que carregava, uma chuva branca e doce desceu sobre os pequenos trabalhadores.
- Vocês não precisam mais trabalhar
tanto, eu lhes trarei açúcar todos os dias, podem montar um governo democrático
e republicano agora e...
As formigas formaram um círculo a sua volta, ergueram
suas antenas na direção do menino, as mandíbulas imóveis, ele viu-se cercado e
ficou apreensivo. Elas se ajoelharam (dobraram sua articulações móveis) no que
parecia uma reverência e disseram em uníssono:
-Nosso senhor, nosso rei,vida longa
ao mestre da fartura!!!
-Ah...
Um sorriso nasceu em sua face ao
mesmo tempo em que sumiu todas suas idéias libertárias. Um sentimento o invadiu
e o tomou por completo quando declamou alto e inflamado:
- Certo então, eu as governarei, serei
seu imperador, levarei vocês ao ápice, seremos o melhor formigueiro, o mais unido,
o mais forte, entretanto minha filhas, teremos que fazer alguns sacrifícios e
esforços e – com o dedo em riste e o peito estufado - e desde já deixo claro
que não vou tolerar objeções, insubordinação ou reclamações!
O governo daquele menino sobre as formigas
seria marcado não só pela fartura do açúcar, mas por seus por seus meios de
intimidação com aquele povo artrópode: o “polegar” para esmagar, e o que daria
o nome ao seu período de governo, o ”Reinado Do Álcool e Fósforo”!
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